03 de setembro de 2010
Falta de ética e de governança corporativa PDF Imprimir E-mail
Image William Cox é Diretor da Management & Excellence (M&E), empresa de pesquisa, auditoria e consultoria em sustentabilidade presente em Madrid e São Paulo, com doutorado  na London School of Economics.

9 de junho de 2010

 

A maioria dos investimentos sustentáveis reflete falta de ética e de governança corporativa

Imagine que você dê R$ 10 para um amigo investir. Você pede que ele lhe retorne no dia seguinte, com R$ 11 e promete dividir 50% do lucro com ele.

No dia seguinte, você o encontra e ele lhe explica que ele gastou seus R$ 10 em uma refeição rápida. Age, desta maneira, com transparência, por ter lhe dito como gastou o seu dinheiro. Além disso, ele argumenta, os R$ 10 foram bem investidos, já que ele serviram pra suprir uma necessidade básica, servindo assim para um bom propósito.

Tal atitude é ética? Quais são os resultados desta situação? Um deles é que você, como investidor, nunca mais vai emprestar dinheiro para o seu amigo investir. Outra conseqüência é que, provavelmente, em breve seu amigo será considerado irresponsável ao lidar com o dinheiro alheio.

A maioria das empresas se comporta desta maneira ao usar o dinheiro do investidor nos chamados projetos de sustentabilidade. Ainda que estejam ficando cada vez mais transparentes sobre o destino deste dinheiro, não é possível encontrar em suas demonstrações de fluxo de caixa, balanços ou análises, o retorno destes investimentos. O valor investido em projetos de sustentabilidade reduz o fluxo de caixa livre – dinheiro que normalmente pertence aos acionistas como dividendos, reinvestidos para impulsionar o crescimento ou recompra de ações. Todas essas medidas poderão influenciar os fluxos de caixa futuros e o valor da empresa – o valor dos investidores da empresa.

Entretanto, tais recursos são investidos em projetos que podem ou não ter contribuído para o fluxo de caixa da empresa, e, conseqüentemente, para o seu valor. Os projetos em sustentabilidade são “investimentos no escuro”, com algumas exceções, aparentemente sem ter sofrido qualquer avaliação de valor presente líquido (VPL), que poderia ter esclarecido se irão contribuir de forma positiva ou negativa para o fluxo de caixa geral da empresa. Normalmente, projetos são primeiro submetidos a análises de taxa interna de retorno (TIR), descontado do custo médio de capital ponderado (WACC) da empresa e ainda avaliado pelo VPL projetado, entre outras coisas.

Por alguma razão, projetos de sustentabilidade parecem ser “grátis” para todos os gestores utilizarem o dinheiro dos investidores e, possivelmente, reduzir o fluxo de caixa livre da empresa. A única medida de fluxo de caixa que o investidor pode atualmente discernir para estes projetos é o impacto em reduzir a carga tributária da empresa, que é efetiva em todas as despesas.

Deveria causar questionamentos o fato das empresas apresentarem seus projetos de sustentabilidade em conferências de investidores, como reuniões com analistas e roadshows, sem quantificar sequer um retorno desses investimentos. O que os investidores, interessados nos retornos de seus investimentos, podem fazer sobre este comportamento sem controle?

Hoje, os investidores têm apenas questionado de maneira geral o impacto de investimentos em sustentabilidade. Aparentemente, ainda não é um assunto tão importante. Por que não? Primeiramente, estes investimentos são considerados “elevados” e, perguntando por retornos, os investidores podem se sentir culpados. Alguns agem como se fossem contribuições para instituições de caridade, sendo assim irrepreensíveis. Segundo, é difícil determinar o total da maioria dos investimentos em sustentabilidade, por estarem dispersos entre os orçamentos de marketing, recursos humanos, operações e outras áreas. A maioria envolve custos irrecuperáveis que são esquecidos no ano seguinte, ou ainda profundamente escondidos em orçamento administrativo, por usarem recursos existentes. No entanto, se devidamente contabilizados, estes custos poderiam ser alocados no lugar apropriado nos orçamentos ou definidos como custo de oportunidade. Em ambos os casos, aumentaria o WACC da empresa – o que é um mau negócio. O fato dos investidores não terem controle sobre os custos desses projetos reflete má governança corporativa e falta de ética dessas empresas – que deveriam melhorar com a sustentabilidade.

Então, qual a solução para isso? É necessário submeter os projetos de sustentabilidade às mesmas análises realizadas para os demais investimentos. Os resultados irão projetar fluxo de caixa maior e valores de ação das empresas exibindo verdadeira transparência. De fato, pode levar a um salto nas projeções do valor da ação e constituir uma excelente investment story. No próximo artigo, veremos de perto como avaliar o retorno (VPL) de investimentos em sustentabilidade.

 

 

 

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